Turma Caipira de Cornélio Pires

MÚSICA CAIPIRA – TRECHOS DE UMA HISTÓRIA QUE MARCA A CULTURA DE UM POVO

by • 17 de junho de 2016 • ArtigosComments (0)574

 

Olá amigos, fãs, colegas e pesquisadores, estou aproveitando esse espaço no meu site para periodicamente publicar alguns artigos contando um pouco da história da música caipira.

De forma autodidata comecei minhas pesquisas quando contava apenas com 12 anos de idade e desde então venho recolhendo material, catalogando e fazendo a minha própria organização desses dados coletados.

Existe hoje uma ampla bibliografia falando sobre a origem da música caipira que vem desde os tempos das caravelas que trouxeram em seu inventário algumas violas até o século passado, porém percebemos uma grande deficiência de registros escritos sobre a história da música caipira à partir do disco, ou seja, à partir de 1929.

Nesse quesito que entram a minha delimitação de pesquisa, pois pretendo registrar a história do disco para cá.

Naturalmente que preciso de maneira bem suscinta abordar alguns aspectos do início da viola no Brasil, por isso começarei contando a história da música caipira, como ela começou, quem fez essa história e todas as fases que ela teve até chegar aos dias de hoje e é isso que farei à partir de agora…

A música caipira existe desde que nasceu o primeiro caipira. Originária do Brasil, fruto da  fusão das culturas européias, com os costumes indígenas e os ritmos africanos.

Os Jesuítas quando chegaram ao Brasil, trouxeram a viola, naturalmente que mais rústica, à princípio para consolar a mágoa e espantar a solidão. Chegando aqui, deparando-se com o índios, viram na viola, uma grande possibilidade de catequização dos indígenas, pois aliando a viola com as danças, poderiam além de conquistar a confiança, também ensinar a língua portuguesa aos mesmos.

Várias pesquisas existem para mostrar que o linguajar caipira não é errado na maneira de pronunciar, e sim é fruto de nossa primeira língua arcaica. Ivan Vilela, pesquisador e violeiro que cita como exemplo, que os índios tinham dificuldade em pronunciar as consoantes duplas, tipo o LH, então ao invés de pronunciar “colher”, eles falavam “coié”, “muié”, termos até hoje ainda falados por boa parte da população. Em sendo assim, o caipira de hoje, foi de certa forma, a língua de outrora.

Bom, voltando ao assunto da música, muitos séculos se passaram e no início do séc. XX, um bandeirante paulista chamado Cornélio Pires , folclorista e pesquisador lançou em 1910 o seu livro “Musa Caipira”. Ele tinha autoridade para escrever sobre o caipira e seus costumes, pois era natural de Tietê/SP, onde morou em fazendas e pode saborear de nossa cultura. Durante a semana de Arte Moderna em 1922 encenou com um grupo de cornelio-piresatores no famoso Colégio Mackenzie uma peça sobre um velório caipira e obteve um grande sucesso com boa repercussão entre a mídia da época.

Vendo uma boa oportunidade de criar e fazer a diferença em 1927 e 1928 resolveu com recursos próprios viajar pelo interior paulista e selecionar uma turma de violeiros autênticos para no ano seguinte leva-los para São Paulo com o intuito de registrar os primeiros arquivos fonográficos da música caipira. Isso aconteceu em 1929 e essa turma ficou conhecida como a “Turma Caipira de Cornélio Pires” que era composta por Mariano e Caçula; Mandi e Sorocabinha; Zico Dias e Ferrinho e Arlindo Santana e Sebastiãozinho. Em maio de 1929, o próprio Cornélio Pires lançou os primeiros 05 (cinco) discos de sua série na gravadora Colúmbia, porém somente com anedotas caipiras, interpretadas por ele mesmo, fazendo inclusive vários personagens na mesma gravação. Cornélio Pires realmente era um artista completo.

Esse intervalo entre maio e outubro de 1929 é um período que causa confusão entre os pesquisadores, porém conforme esclarecido pelo amigo e historiador Israel Lopes da cidade de São Borja/RS em seu livro “Turma Caipira de Cornélio Pires – Os Pioneiros da Moda de Viola em 1929”, os primeiros 06 discos lançados em 05/1929 foram exclusivos de anedotas e receberam a numeração de 20.000 a 20.005, para somente em 10/1929 lançarem no disco nº 20.006 a primeira moda de viola. Nessa data Cornélio Pires lançou mais 05 (cinco) discos da série na gravadora Colúmbia, desta feita com seus violeiros, onde a primeira gravação oficial foi “Jorginho do Sertão” interpretada por Mariano e Caçula.

Naquela época, até a segunda metade da década de 30 a música caipira era composta somente pela dupla e o acompanhamento de uma viola, caracterizando assim a moda de viola. Os temas eram sempre seguidos de tragédias, vida da roça e algumas vezes por temáticas políticas.

Na segunda metade da década de 30, além da antiga turma caipira de Cornélio Pires, já existiam algumas duplas de expressão, tais como Alvarenga e Ranchinho (1936), Jararaca e Ratinho (1936) e Raul Torres e Serrinha (1937).

Raul Torres, paulista de Botucatu surgiu na Rádio Cruzeiro do Sul em 1927 cantando sambas e emboladas, aliás chegou ser considerado como o “Rei das Emboladas”. Em 1930 gravou na Turma Caipira do Cornélio Pires com o pseudônimo de “Bico Doce e Sua Gente do Norte” gravando 05 músicas.

Ainda no mesmo ano voltou a gravar seus discos usando o nome já consagrado de Raul Torres.

Por volta de 1935 chegou em São Paulo, incentivado pelo poeta Guilherme de Almeida um jovemraul_torres compositor de Cordeirópolis/SP chamado João Batista da Silva, que por seu jeito bonachão e pacato recebeu o nome artístico de João Pacífico. Após algumas tentativas frustradas conseguiu a atenção de Raul Torres que tornou-se um grande parceiro em composições caipiras.

João Pacífico   foi sem sombra de dúvidas um dos maiores e mais importantes compositores de toda a história da música caipira.

Já em parceria com João Pacífico, Raul Torres em 1937 foi a Botucatu/SP e convidou o seu sobrinho Antenor Serra para vir embora para São Paulo, conseguindo para ele uma colocação na Companhia de Estrada de Ferro Sorocabana onde Raul Torres respondia por um bom cargo.

Tudo acertado, o sobrinho Antenor estréia no rádio e no disco com o tio formando a dupla “Raul Torres & Serrinha” raul_trres_e_serrinha_em_1944lançando no mesmo ano o grande clássico “Chico Mulato (Raul Torres/João Pacífico)” e em 1940 outro clássico dos mesmos autores “Cabocla Tereza”

Ainda em 1937, Raul Torres viaja em excursão pelo Paraguai onde descobriu e trouxe para o Brasil um ritmo chamado guarânia e com isso foi ele também, o responsável pelo casamento da viola com o violão criando assim uma harmonização maior para a música caipira, pois lá no Paraguai viu os músicos acompanhando a harpa com os violões e pela sonoridade da harpa experimentou fazer o acompanhamento da viola com o violão, formatando a maneira como é utilizada até os dias de hoje. A dupla Raul Torres e Serrinha durou de 1937 até 1942 quando por motivos particulares a dupla separou, surgindo duas novas excelentes duplas caipiras: Raul Torres & Florêncio e Serrinha & Caboclinho.

A dupla de tio e sobrinho terminou, porém a parceria de Raul Torres com João Pacífico continuou e muito frutífera, imortalizando assim grandes clássicos como Chico Mulato, Cabocla Tereza e Pingo d’Agua.

Outra dupla que iniciou com sucesso em 1936 foi Alvarenga e Ranchinho, que faziam muita sátira política, eram presos, prometiam que não fariam mais e enquanto isso pensavam em mais uma moda para satirizar, ficaram para a história, conhecidos como os “Milionários do Riso”

A dupla formada por Murilo Alvarenga e Diésis dos Anjos Gaya nasceu em 1933 na cidade de Santos/SP e cantavam tangos e modinhas, até que perceberam que tinham um veio humorístico e foi nesse segmento que começaram atuar em rádios e cassinos agradando em cheio.

É importante falar nesse momento sobre outro personagem muito importante que é Ariowaldo Pires, o popular Capitão Furtado, sobrinho de Cornélio Pires e importante compositor e produtor musical, pois foi ele quem começou a popularizar os tipos caipiras no rádio.

Capitão Furtado era um bom descobridor de talentos e foi num desses acasos do destino que o Capitão produzindo o filme “Fazendo Fita” em 1936 precisou às pressas encontrar uma dupla caipira para substituir Mariano e Caçula que não quiseram mais participar do filme e encontrou na rua com os jovens Alvarenga e Ranchinho que já  queestrearam no cinema antes mesmo do disco.

Surgiu então a parceria entre Alvarenga e Ranchinho com Capitão Furtado formando inclusive a “Trinca do Bom Humor” fazendo grande sucesso nos Cassinos do Rio de Janeiro. Gravaram muitos discos juntos e marcaram o restante da década de 30.

Uma outra curiosidade é que nessa época, além das modas nostálgicas e tristes e acompanhadas somente por uma viola elas eram cantadas em um tom baixo, suave o que caracterizava as duplas da época e isso só viria mudar em meados dos anos 40 com a chegada de uma nova dupla que viria fazer escola dentro da música caipira e marcando à partir daí a 2ª fase da música caipira. Bom, mas isso é assunto para outro dia.

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